quarta-feira, julho 12, 2006

Qual é a "utilidade" da filosofia?


Para responder à questão, precisamos saber primeiro o que entendemos por utilidade. Eis pois o primeiro impasse. Vivemos num mundo em que a visão das pessoas está marcada pela busca dos resultados imediatos do conhecimento. Então, é considerada importante a pesquisa do biólogo na busca da cura do câncer; ou o estudo da matemática no 2º grau porque “entra no vestibular”; e constantemente o estudante pergunta: “para que vou estudar isto, se não usarei na minha profissão ?”
Seguindo essa linha de pensamento, a filosofia seria realmente “inútil”: não serve para nenhuma alteração imediata de ordem pragmática. Neste ponto ele é semelhante à arte. Se perguntarmos qual é a finalidade de uma obra de arte, veremos que ela tem um fim em si mesma e, nesse sentido, é “inútil”.
Entretanto, não ter utilidade imediata não significa ser desnecessário. A filosofia é necessária.
Onde está a necessidade da filosofia?
Está no fato de que, por meio da reflexão, a filosofia permite ao homem ter mais de uma dimensão, além da que é dada pelo agir imediato no qual o “homem prático” se encontra mergulhado.É a filosofia que dá o distanciamento para a avaliação dos fundamentos dos atos humanos e dos fins a que eles se destinam; reúne o pensamento fragmentado da ciência e o reconstrói na sua unidade; retoma a ação pulverizada no tempo e procura compreendê-la .
Portanto, a filosofia é a possibilidade da transcendência humana, ou seja, a capacidade que só o homem tem de superar a situação dada e não-escolhida. Pela transcendência, o homem surge como ser de projeto, capaz de liberdade e de construir seu destino.
O distanciamento é justamente o que provoca a aproximação maior do homem com a vida. Whitehead, lógico e matemático britânico contemporâneo, disse que “a função da razão é promover a arte da vida”. A filosofia recupera o processo perdido no imobilismo das coisas feitas (mortas porque já ultrapassadas). A filosofia impede a estagnação.
Por isso, o filosofar sempre se confronta com o poder, e sua investigação não fica alheia à ética e á política. É o que afirma o historiador da filosofia François Châtelet: “Desde que há Estado - da cidade às burocracias contemporâneas -, a idéia de verdade sempre se voltou, finalmente, para o lado dos poderes (ou foi recuperado pr eles, como testemunhas, por exemplo, a evolução do pensamento francês do século XIX). Por conseguinte, a contribuição especifica da filosofia que se coloca ao serviço da liberdade, de todas as liberdades, é a de minar, pelas analises que ela opera e pelas ações que desencadeia, as instituições repressivas e simplificadoras: quer se trate da ciência, do ensino, da tradução, da pesquisa, da medicina, da família, da policia, do fato carcerário, dos sistemas burocráticos, o que importa e fazer aparecer a mascara, deslocá-la, arrancá-la...”
A filosofia é, portanto, a critica da ideologia, enquanto forma ilusória de conhecimento que visa a manutenção de privilégios. Atentando para a etimologia do vocábulo grego correspondente à verdade (a-létheia, a-letheúein, “desnudar)”, vemos que a verdade é pôr a nu aquilo que estava escondido, e aí reside a vocação do filosofo: o desvelamento do que está encoberto pelo costume, pelo convencional, pelo poder.
Finalmente, a filosofia exige coragem. Filosofar não é um exercício puramente intelectual. Descobrir a verdade é ter coragem de enfrentar as formas estagnadas do poder que tentam manter o status quo, é aceitar o desafio da mudança. Saber para transformar.
Lembre-se que Sócrates foi aquele que enfrentou com coragem o desafio máximo da morte.

5 comentários:

jesse disse...

Num contexto,como o de hoje, em que tudo se submete as "famosas metas de produtividade", fica fácil perceber o quanto distante está o homem de si mesmo. É o que o Filósofo de Trèves falava sobre o mundo da coisificação.
A praticidade da filosofia imbrica-se com a política não oficial e com o mundo dos "psis", passando a viver na contramão da globalização neoliberal. É como se estivésssemos vivendo no alvorecer de uma nova "Idade Média". Um grande desafio temos pela frente.

Guilherme Augusto de Oliveira disse...

Eu gosto muito desse assunto que é filosofia.

erivan disse...

numa conclusão a filosofia é a pratica da atividade de reflexão perante a realidade ... quem não conhece a sua realidade esta distante da filosofia ... todos nós somos filosófos ....aquele que quer praticar a reflexão da realidade ... não teve querer ser melhor do que o outro . ERIVAN OLIVEIRA DO NASCIMENTO erivan_452@hotmail.com

Xico Rocha disse...

Com certeza Erivan, temos que adentrar sobre nós mesmos para poder entender o mundo.
Abraços
Xico Rocha

navire disse...

Essa frase: adentrar em nós mesmo reflete o grande ensinamento de Sócrates O filósofo grego. "conhece-te a ti mesmo" é uma das atitudes da reflexão filosófica.