quinta-feira, julho 27, 2006

JUSTIÇA SEJA FEITA

Há poucos dias estive reunido com os amigos Eduardo Bueres e Nilton Atayde, na casa do segundo, e sempre que bebericamos, temperamos nossos encontros com assuntos e temas que nos são aprazível, e entre um trago e outros, nos deleitamos com boa música, coisa que diga-se de passagem, o nobre amigo sabe como ninguem apreciar, há sempre um pouco de tudo em sua invejável e eclética coleção de CD. E como sempre ocorre, discorremos pelos mais variados argumentos. Nestes encontros a justiça sempre aflora em algum momento. E é pensando em se fazer justiça, que acabo de receber um e-mail do querido amigo Nilton, que me instiga a divulgar algo que por muito tempo, ou melhor, que nos bons e velhos tempos estudantís(idos de 70), passou batido por mero descuido dos então ditos intelectuais da época, e que em dado momento do nosso encontro chegamos a comentar. Trata-se do poema "No caminho, com Maiakóviski," que é de um Autor brasileiro, Eduardo Alves da Costa, e que por muito tempo, aliás até bem pouco tempo, e por uma falha do escritor Roberto Freire, que na epígrafe de um de seus livros, creditou o poema como do poeta russo Wladimir Maiakóvski, promoveu o equívoco. Querido amigo, JUSTIÇA seja feita. Para encerrar, segue na íntegra o famigerado poema:
No Caminho, com Maiakóvski
(Eduardo Alves da Costa)
Assim como a criança humildemente afaga a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer por andar ombro a ombro com um poeta soviético.
Lendo teus versos, aprendi a ter coragem.
Tu sabes, conheces melhor do que eu a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm a ninguém é dado repousar a cabeça alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz; e nós, que não temos pacto algum com os senhores do mundo, por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto a ousadia me afogueia as faces e eu fantasio um levante; mas manhã, diante do juiz, talvez meus lábios calem a verdade como um foco de germes capaz de me destruir.
Olho ao redor e o que vejo e acabo por repetir são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam pela gola do paletó à porta do templo e me pedem que aguarde até que a Democracia se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei, porque não estou amedrontado a ponto de cegar, que ela tem uma espada a lhe espetar as costelas e o riso que nos mostra é uma tênue cortina lançada sobre os arsenais.
Vamos ao campo e não os vemos ao nosso lado, no plantio.
Mas ao tempo da colheita lá estão e acabam por nos roubar até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso defender nossos lares mas se nos rebelamos contra a opressão é sobre nós que marcham os soldados.
E por temor eu me calo, por temor aceito a condição de falso democrata e rotulo meus gestos com a palavra liberdade, procurando, num sorriso, esconder minha dor diante de meus superiores.
Mas dentro de mim, com a potência de um milhão de vozes, o coração grita - MENTIRA!

3 comentários:

Anônimo disse...

Oportuno esclarecimento, ainda hoje existem "intelectuais" que tem esta visão, grande esclarecimento.
Neto

citadinokane disse...

Xico,
Ô poesia benfazeja.
É de arrepiar.
Justiça feita ao poeta brasileiro Eduardo Costa, parabéns ao amigo Nilton por ter insistido.
Um abraço

Anônimo disse...

Xico
Há bem pouco tempo o autor do poema em uma exposição na França(o autor é também artista plástico), viu o seu poema com créditos a autores alemãos.

Inácio