segunda-feira, setembro 04, 2006

A PALAVRA.

Era uma vez um pescador chamado Drid. Era um homem distinto, era vigoroso, de ar franco e seu olhar, quando ele ria, era tão vivo quanto o sol. Ora, eis o que lhe aconteceu:
Uma manhã, quando ele andava ao longo da praia, com sua vara de pesca sobre as costas, o rosto ao vento e os pés na areia molhada pelo movimento das ondas, encontrou em seu caminho um crânio humano. Esta parte humana depositada entre as algas secas, excitou imediatamente seu humor alegre e brincalhão. Ele parou diante do crânio, se inclinou e disse:
- Crânio, pobre crânio quem te conduziu até aqui?
Ele riu, não esperando nenhuma resposta. No entanto os maxilares esbranquiçados da peça se abriram num rangido e o pescador escutou esta simples frase:
- A palavra...
Drid saltou para trás; ficou um momento afoito como um animal assustado; depois vendo a cabeça do velho defunto tão imóvel e inofensiva quanto uma pedra, pensou ter-se enganado por algum sussurro da brisa, reaproximou-se prudentemente e repetiu, a voz tremendo, sua questão:
- Crânio, pobre crânio, quem te conduziu até aqui?
- "A palavra..." respondeu o interpelado, desta vez com um quê de impaciência dolorosa, e uma indiscutível clareza.
Então Drid levou os punhos ao peito, soltou um grito de pavor; recuou, os olhos esbugalhados, deu meia volta e correu com os braços para o céu, como se mil diabos estivessem em seu encalço.
Ele correu assim até sua aldeia.
Entrou como um raio nos aposentos de seu rei. O rei era um homem gordo que estava majestosamente sentado à mesa, degustando sua refeição matinal. Drid caiu a seus pés e, todo suado e arfando, disse:
- "Rei, na praia, lá longe, há um crânio que fala".
- "Um crânio que fala!", exclamou o rei. "Homem, estás sóbrio?"
- "Sóbrio, eu? Misericórdia eu não bebi desde ontem mais que uma cabaça de leite de cabra... Rei venerado, eu te suplico que acredite em mim, e eu ouso novamente afirmar que encontrei agora há pouco, quando eu ia à minha pesca cotidiana, um crânio tão perfeitamente falante como qualquer ser vivente".
- "Eu não acredito em nada disto, respondeu o rei. No entanto é possível que tu digas a verdade. Neste caso, não quero arriscar-me a ser o último a ver e ouvir esta considerável manifestação de um morto.
Mas te previno: se por engano ou má intenção tu foste levado a vir contar-me uma lorota, homem de nada, tu o pagarás com tua cabeça!"
- "Eu não temo tua cólera, rei perfeito, porque sei bem que não menti", disse Drid, correndo já em direção à porta.
O rei estralou os dedos, tomou seu sabre, colocou-o na cintura e se foi trotando atrás de sua guarda, com Drid, o pescador.
Caminharam ao longo do mar até o monte de algas onde estava o crânio. Drid se inclinou e acariciando amavelmente sua fronte rochosa disse:
- "Crânio, eis diante de ti o rei da minha aldeia. Peço, por favor, diga-lhe algumas palavras de boas vindas".
Nenhum som saiu das mandíbulas de osso. Drid se ajoelhou, o coração batendo mais rápido.
- "Crânio, por piedade, fale. Nosso rei tem uma orelha fina, um murmúrio lhe será suficiente. Diga-lhe, eu te suplico, quem te trouxe até aqui".
O crânio miraculoso não pareceu entender mais que um crânio vulgar; permaneceu tão firmemente depositado quanto o mais medíocre dos crânios, tão mudo quanto um crânio imperturbavelmente instalado na sua definitiva condição de crânio, sob o grande sol entre as algas secas. Pois, calou-se obstinadamente.
O rei, fortemente irritado por ter sido incomodado por nada, tirou seu sabre da cintura com um rápido movimento.
- "Maldito mentiroso!", disse ele.
E sem outro julgamento, de um golpe certeiro arrancou a cabeça de Drid. Após o que, voltou reclamando para os seus assuntos de rei, ao longo das ondas.
Então, enquanto o rei se distanciava, o crânio abriu enfim seus maxilares rangendo e disse à cabeça do pescador que, rolando sobre a areia, viera juntar-se à sua, face contra face:
- "Cabeça, pobre cabeça, quem te conduziu até aqui?"
A boca de Drid se abriu, a língua de Drid saiu entre seus dentes e a voz de Drid respondeu:
- "A palavra".
(“A palavra”, Henri Gougaud)

14 comentários:

Pachmina hinó disse...

HOLA!! BESITOS

las flores del desierto disse...

Hola, simplemente pasaba a saludarte...besitos y chau, un gusto y gracias por poner en mi post que yo soy adorable, tú lo eres más por decírlo.
Desde Chile, te saludo, bye...

Emmanuelle disse...

Thanks for visit!

LaRomané disse...

El portugues ejerce sobre un magnetismo especial. Me encantaria escuchar este cuento de ti...
no responderia de mi....


Saludos y gracias por la visita
x0x0x0
LaRomané

Dilaca disse...

Me encantó el cuento...
Esas mágicas realidades que tiene la ranativa vuestra...
Me estoy llevando bien con la lectura del portugués.

Ana Sousa disse...

Fiquei fascinada com este conto: em simples palavras dizem-se verdades incriveis.
Muito bonito mesmo :)

Obrigado pela visita ao meu blog.
Cumprimentos.
Ana Sousa :)

Patricia disse...

Mientras veía tu blog pensaba, hablo español, escribo algo de italiano, o sea, si me esfuerzo, podría terminar comprendiendo portugués :)

Gracias por tu visita y comentario.

Saludos.

Todesengel disse...

Hola, lamentablemente soy dura en idiomas je, pero me encanta oir el portuguez...solo que no lo entiendo:P

Gracias por tu visita...

Saludos Argentinos

Mis Nuevos Aires disse...

gracias por tu visita..!! y la verdad nada que ver con victor jara.. alcance de apellido solamente..

Saludos desde chile!!

JENNY disse...

Muy cruel la historia!

La Pie disse...

querro falar portugues para entender tuas historias...:)
vou a leerlas para aprender... abrigada. (T'as compris? :)

Gracinha disse...

Muito bem, gostei mesmo muito do que encontrei. Fascinante este texto.
Brigada pela vizita ao meu cantinho, volte sempre.

Beijinhos

pensamentos_vagabundos disse...

adorei a historia:)
abraço vagabundo

Carlos Ponte disse...

É por isso que ainda temos a cabeça presa ao pescoço: nem sempre dizemos tudo!
Um abraço ao amigo Xico Rocha,
Carlos Ponte